| 09/08/2009 07h02min
Jovens e até crianças se viciam ao primeiro contato com a droga derivada da cocaína, que é consumida em pequenos cigarros ou cachimbos e se dissemina assustadoramente pelas cidades. Seus usuários, isolados da família e dos amigos, cometem os mais variados crimes para saciar a necessidade provocada pela dependência química, que os leva a fumar entre 20 e 50 doses diariamente, a baixo custo.
A descrição acima poderia ser do crack ou da merla, flagelos urbanos bastante conhecidos dos brasileiros. Trata-se, porém, do paco, droga que corrói a vida de jovens argentinos, não necessariamente de classe baixa, e tem até uma referência geográfica: a Ciudad Oculta, em Buenos Aires. O paco é uma mistura de pasta base de cocaína com solventes, querosene e veneno contra ratos. Os especialistas dizem que é uma droga mais potente que o próprio crack, assemelhando-se à merla. Pela polícia argentina, é definido como “droga-lixo” ou “flagelo dos pobres”. Seu uso é o “consumo do lixo das drogas”. H.P, um
jovem de 23 anos
que abandonou os estudos e ronda a cidade depois de ter deixado a vida de classe média que levava na Villa Crespo, em Buenos Aires, está se tratando em um local chamado Casa Flores, na capital argentina.
Há três meses sem consumir a substância, cauteloso, ainda não se diz livre do vício.
– Já vi muita gente saindo e voltando. Não posso me dar ao luxo de me dizer curado. Mas quero muito me livrar, é difícil. Comecei como todos, com a maconha. Depois, a cocaína, que era cara. Alguns amigos se afastaram, eu não – conta, pelo telefone, H.P, filho único de um casal de origem pobre (ele ex-caminhoneiro e ela dona de casa) que apostou no filão dos estacionamentos para carros no centro portenho e atingiu alguma prosperidade no final dos anos 1990.
Governo de Buenos Aires abriu centros para viciados
H.P. costumava viajar com um tio caminhoneiro. Era uma forma de ganhar seu dinheiro enquanto estudava. Aos poucos abandonou o
tio, que ia buscá-lo e não o achava. Para sustentar o
vício, passou aos furtos, dentro e fora de casa. Abandonou, também, os estudos. Perdeu oito quilos em um mês. Por enquanto, não procurou a família. Quer voltar para casa, mas ainda não se sente preparado.
– Estou muito consciente. Quero me expor quando puder. Quero dizer que estou curado quando tiver certeza disso. Estou quase com essa certeza. É essa minha consciência que me permite estar ainda tentando. Quem acha que se cura por milagre volta a todo o ciclo destrutivo – diz ele.
O governo da província de Buenos Aires já abriu dois centros especializados em atender jovens viciados, ambos com preocupação em dar base emocional aos pacientes e possibilitar-lhes alguma atividade.
São a Casa Puerto e a Casa Flores, onde H.P. buscou socorro. Há até mesmo crianças de oito anos entre seus frequentadores. E são as mais difíceis de deixar o paco. Há, também, uma ONG chamada Mães Contra o Paco, que trabalha em Ciudad Oculta e tem como responsável a paraguaia
Bilma Acuna, 48 anos, mãe de dois
dependentes. Um deles, de 27 anos, tem dois filhos.
Organização das Nações Unidas está preocupada
Um relatório da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife), da Organização das Nações Unidas (ONU), define a situação na Argentina como preocupante. Menciona a diminuição da média de idade de usuários – as crianças, mais suscetíveis ao vício, sofrem problemas na memória e surtos psicóticos.
“Na Argentina, o consumo do paco, forma de cocaína extremamente viciante, aumentou de forma considerável nos últimos dois anos. Geralmente consomem essa substância os jovens, incluindo crianças de oito ou nove anos”, descreve.
O delegado João Bancolini, do Departamento de Narcóticos (Denarc), garante que não houve penetração do paco no Brasil:
– O que já houve foi a apreensão de merla. Mas, mesmo assim, é uma droga mais restrita a Brasília. O crack nos preocupa mais.
leo.gerchmann@zerohora.com.br
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