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A despeito de qualquer outra nobre intenção do autor, o filme Desejo e Reparação, baseado na obra de Ian McEwan, tem o poder de despertar no espectador uma reflexão rasa, mas quase inevitável para quem sai do cinema de mãos dadas e cega os olhos diante do ambiente iluminado, seguro e aparentemente feliz do shopping center. Depois de duas horas assistindo à tragédia particular de um casal, parece ficar flagrante o abismo que há entre aquele mundo da primeira metade do século 20 — quando a qualquer momento uma carta convocando para lutar em uma guerra poderia chegar e arruinar para sempre a trajetória de um amor — e o atual, em que provavelmente o único perigo enfrentado pelo casal que foi ao cinema é o de que a relação caia no tédio depois de mais alguns domingos repetindo aquele programa.
Esta aparente sensação de segurança do indivíduo diante de um mundo sujeito a poucas intempéries do tipo que nossos avós costumavam enfrentar - guerras intercontinentais, epidemias, fascismo - é, no entanto, uma armadilha, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Em Medo Líquido (Jorge Zahar, R$ 29,90, 240 páginas), publicado este ano, o autor que se tornou um best-seller ao aproximar a sociologia do cotidiano dá seqüência ao estudo do mundo atual à luz de sua teoria líquida.
Depois de escrever Modernidade Líquida, Amor Líquido, Tempos Líquidos e Vida Líquida — sempre tendo como norte a volatilidade e a instabilidade das relações atuais —, o polonês mira agora na insegurança. Para descrever a trajetória deste sentimento e decifrar por que continuamos apavorados, em pleno século 21, Bauman retrocede para além da II Guerra de Desejo e Reparação. Reimagina a experiência de se existir no século 16, que foi definida por Lucien Febvre como "peur toujour, peur partout" (medo sempre e em toda parte). O historiador francês vinculava a ubiqüidade do medo à escuridão do mundo, que começava do lado de fora da casa. A modernidade seria o grande salto à frente: com o avanço das ciências, chegaria o tempo do fim das surpresas, das calamidades, das catástrofes. Mas não foi bem assim: "O que deveria ser uma rota de fuga, contudo, revelou-se, em vez disso, um longo desvio. (...) Esta nossa vida tem se mostrado diferente do tipo de vida que os sábios do Iluminismo
e seus herdeiros avistaram e procuraram planejar",constata Bauman.
Refletidas nas capas de revista dedicadas à saúde e nas "advertências globais" (gripe das aves, bug do milênio, ondas assassinas) que se multiplicam a cada dia, a sensação de medo, segundo Bauman, é indissociável do contexto descrito por ele em Modernidade Líquida — livro que reúne suas teses centrais:
"Viver num mundo líquido-moderno conhecido por admitir apenas uma certeza — a de que o amanhã não pode ser, não deve ser, não será como hoje — significa um ensaio de desaparecimento, sumiço, extinção e morte."
Os perigos atuais seriam basicamente de três tipos: aqueles que ameaçam o corpo e as propriedades, aqueles que ameaçam a durabilidade da ordem social (da qual dependem renda e emprego) e aqueles que ameaçam o lugar da pessoa no mundo (a posição na hierarquia social, a imunidade à exclusão social). O Estado, em vista dos mercados crescentemente extraterritoriais, não é mais capaz de cumprir seu dever de proteger os cidadãos das ameaças à existência.
Os medos também são classificados por Bauman em três tipos: o da natureza (terremotos, furacões, secas), o de outras pessoas (terroristas, criminosos, poluição) e um terceiro tipo, descrito como "uma zona em que as redes saem do ar, barris de petróleo secam, bolsas de valores entram em colapso e companhias desaparecem do dia para a noite levando consigo centenas de empregos".
Neste contexto, os cartões de crédito seriam uma reação: "Vivemos a crédito: nenhuma geração passada foi tão endividada quanto a nossa. Viver à crédito tem seus prazeres utilitários: por que retardar a satisfação? (...) Se as cadernetas de poupança implicam a certeza do futuro, um futuro incerto exige cartões de crédito."
Bauman interpreta ainda fenômenos recentes como o programa de televisão Big Brother e o terrorismo. Por fim, dedica um capítulo às maneiras de se lidar com o medo — capítulo que se revela desnecessário. O mérito de Bauman — reafirmado em mais este livro — é justamente o de não oferecer respostas prontas, mas deixá-las implícitas na dissecação que faz da realidade. Ao propor um grande divã da humanidade, nos faz pensar se não estamos, o tempo todo, exagerando um pouquinho.

Verissimo autografa na Feira do Livro de Porto Alegre em 2004. Foto: Adriana Franciosi/ZH
A próxima sexta é dia de fila quilométrica na Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country, em Porto Alegre (Túlio de Rose, 100, 2º piso). Depois de uma década sem compilar suas crônicas em livro, Luis Fernando Verissimo autografa às 19h30min seu livro novo, O Mundo é Bárbaro: e o que nós temos a ver com isso (Objetiva, 160 páginas, R$ 29,90), um volume que reúne 69 textos produzidos nos últimos oito anos e já publicados nos jornais nos quais o escritor é colunista: O Globo, Estado de São Paulo e Zero Hora. A obra de Verissimo nunca saiu de catálogo, e já mudou de editora três vezes nesse período, mas tudo o que veio a público em termos de livro de crônicas foram republicações mudando a ordem e o conceito temático de algumas crônicas antigas. Agora, são textos novos, produzidos de 2000 para cá.
Como vocês leram na matéria de hoje do Segundo Caderno, as crônicas de O Mundo é Bárbaro: e o que nós temos a ver com isso são textos de cunho mais político, voltados às grandes preocupações do mundo, como a tensão no Golfo, as eleições americanas, a ascensão da China como superpotência, os paradoxos sociais e morais brasileiros.
E como havíamos prometido na página 6 do Segundo Caderno de hoje vai abaixo uma das crônicas de Verissimo presentes no livro. Deleitem-se:
Começar de Novo
Há tempos li uma boa comparação: a China é como a internet. Todo o mundo sabe que uma coisa daquele tamanho, com tanto público, tem que ser um sucesso comercial e dar lucro. Mas ninguém ainda sabe exatamente como.
Não falta gente tentando descobrir. O tamanho do mercado potencial chinês, mais de 1 bilhão de pessoas, derrotou as restrições americanas ao velho inimigo comunista e suas violações de direitos humanos, pois, se não se perde muita coisa bloqueando Cuba, despreza-se quase um quarto da população mundial discriminando a China. E os chineses estão sendo tão pragmáticos quanto os americanos. Com sua abertura controlada para investimentos externos e multinacionais, quintuplicaram sua economia nos últimos 20 anos. Mas li que as esperanças mais otimistas, de gente que sonhava com fortunas instantâneas se conquistasse apenas meio por cento do mercado chinês, estão sendo frustradas. Descontando-se os 900 milhões de camponeses e os urbanos economicamente marginalizados, sobra uma classe média equivalente à dos Estados Unidos, com uma renda média muito inferior e hábitos de poupança mais conservadores. Algumas empresas, como a Coca-Cola, claro, e a Motorola, estão dando certo no complicado mercado chinês, mas 60% dos investidores estrangeiros ainda não ganharam nada, e os que ganham, ganham pouco. Uma das coisas com que os estrangeiros não contavam é que haveria empresas chinesas, mais acostumadas com a burocracia e a corrupção locais, disputando o mesmo mercado. De qualquer maneira, como no caso da internet, cedo ou tarde a lógica prevalecerá. E estaremos todos produzindo para vender na China — e comprar da China.
Que país de tamanho parecido com o nosso serviria como modelo para o Brasil, excluídos os próprios Estados Unidos? Para defender uma imitação da China, só fazendo como aquele enólogo francês contratado para produzir vinhos iguais aos da França na Califórnia que, depois de plantadas as videiras e instalados os equipamentos, disse: "Pronto, agora é só esperar 300 anos". Além de 3 mil anos de civilização, precisaríamos passar por algumas revoluções para chegar ao mesmo ponto, depois de decidir se o sucesso valeria tanto sangue. (Desconfie sempre dos que pregam banhos de sangue, eles sempre se referem ao sangue dos outros.) A Índia parecia um exemplo do que se queria evitar, um Brasil levado às piores conseqüências. Hoje é um exemplo de desenvolvimento acelerado mas a partir de coisas que aqui ainda parecem remotas — como uma reforma agrária de verdade, por exemplo. O Canadá seria um bom modelo, mas grande parte do Canadá é só paisagem, sem gente. E o frio? A Rússia trocou o capitalismo de Estado pelo gangsterismo privado, também não serve. A Austrália pelo menos desmente aquelas pessoas que dizem que o problema do Brasil foi a qualidade da nossa colonização por Portugal. Foi povoada por degredados e prostitutas e deu no que deu. A Argentina? Precisaríamos ser argentinos.
O grande modelo para o Brasil dar certo talvez seja o próprio Brasil — nenhum outro tem as mesmas características, história etc. É só começar de novo — desta vez com muito petróleo!

Amanda Root como Anne Elliott na adaptação cinematográfica do livro, de 1997
Última obra publicada da autora inglesa Jane Austen (1775 — 1817), o romance Persuasão (Landmark, 240 páginas, R$ 33,50), que andava meio difícil de ser encontrado nas prateleiras do Brasil, tem agora nova edição. A nova tradução ficou a cargo de Fábio Cyrino, também diretor editorial da mesma Landmark que recentemente publicou uma versão nova de Orgulho e Preconceito. Ambas as edições saindo em edição bilíngüe, justapondo a versão em português e o original da autora que é considerada uma das mais elegantes estetas da palavra em língua inglesa.
Persuasão foi publicado apenas em 1818, um ano após a morte da escritora. Assim como em suas outras obras, Emma, Razão e Sensibilidade e a que é hoje considerada sua obra-prima, a já mencionada Orgulho e Preconceito, para citar apenas algumas, em certa medida Persuasão traz as características marcantes da obra de Jane: as protagonistas são mulheres da sociedade britânica do período, muitas vezes precisando optar entre um casamento de conveniência e uma paixão pouco recomendável por questões de fortuna ou de classe.
O texto sutil e leve da britânica também a tornou uma das autoras preferidas do cinema em tempos recentes. O próprio Persuasão ganhou uma versão recente, de 1997.
— As personagens de Jane Austen buscam o amor, o romance, não têm grandes compromissos. Mas é possível ver sob essa primeira camada de leitura o retrato de outros temas, como o choque da burguesia e da nobreza. Ela escreveu em um período de grandes transformações sociais na Inglaterra, passando pela migração rural para a grande cidade, o fim de uma nobreza aristocrática do campo — comenta o tradutor Fábio Cyrino.
O enredo de Persuasão é em si mesmo um exemplo desse retrato sutil do período nas entrelinhas de uma história romântica. A protagonista, Anne Elliott, pertence a família nobre, porém financeiramente falida. Na juventude, apaixona-se por um capitão da marinha, Frederick Wentworth. Um homem sem berço mas com
muita ambição, uma representação do burguês que se faz por si mesmo que tomava conta do cenário no período, em substituição à aristocracia já sem condições financeiras de manter por si própria seu ocioso padrão de vida. Ainda
assim, a origem humilde do rapaz provoca a imediata desaprovação da família de Anne, que a força a interromper o romance. Anos depois – irreparavelmente solteira pela intransigência da família, ela reencontra seu antigo pretendente. Agora a situação de sua família arrivista está nas mãos de um curador, Admiral Croft, que vem a ser o cunhado de Wentworth, agora promovido e em boa situação financeira devido a seus feitos na guerra contra Napoleão. A ciranda de relações entre os personagens não termina aí. Wentworth agora está cortejando uma vizinha dos Elliott.
Em termos estilísticos, contudo, Persuasão não é nem de longe o melhor trabalho de Jane Austen. Era bastante conhecido seu obsessivo hábito de voltar diversas vezes ao manuscrito, retrabalhando não apenas a linguagem mas as cenas, a estrutura mesma do romance. Foi algo que ela não teve tempo de fazer com Persuasão, obra póstuma, publicada em 1817, no ano posterior a sua morte.

O que o século 17 pode ter a dizer ao século 21? É essa a pergunta que faz ao leitor
a série de romances de capa-e-espada protagonizada pelo espadachim Capitão Diego Alatriste y Tenório, criado em 1996 pelo escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte, que já tem seis livros lançados em sua terra natal, dois deles traduzidos para o Brasil: O Capitão Alatriste e Limpeza de Sangue, ambos pela Companhia ds Letras.
Arturo Pérez-Reverte é conhecido do leitor brasileiro apreciador de obras de fantasia por livros como A Carta Esférica ou O Clube Dumas (que foi adaptado para o cinema como O Último Portal, com Johnny Depp). Na Espanha, as aventuras de Alatriste, que além dos seis episódios ainda deve ganhar outros três nos próximos anos, são uma espécie de fenômeno pop nacional: viraram história em quadrinhos (a imagem que ilustra este post saiu de uma delas, a adaptação "oficial" do primeiro livro, feita por Carlos Giménez e Joan Mundet), bonecos, jogos de tabuleiro, até mesmo, em 2002, uma série de estampas de selos do correio espanhol. E, recentemente, foi adaptado em um filme, dirigido por Agustín Díaz Yanes e estrelado pelo "Aragorn" Viggo Mortensen, interpretando em espanhol.
Tecnicamente, o que de cara já surpreende pelo anacronismo, Alatriste filia-se ao chamado gênero de literatura capa-e-espada (muito popular no século 19), aquele que reúne espadachins heróicos e galantes, amores tumultuosos, aventuras tortuosas e conspirações. Alatriste é um ex-militar e hoje mercenário que vive uma vida instável, sem recursos na Espanha dos anos 1600 — o esplendoroso período conhecido por Século de Ouro, mas que não oculta uma decadência subterrânea que ainda levará à queda do poderoso império espanhol. Pobre, porém altivo, Alatriste serviu nas guerras espanholas contra os holandeses em Flandrers, onde provou sua bravura e sua habilidade com a espada, mas um homem como ele, impetuoso, pouco político e de grande coragem física, é um incauto nas batalhas políticas tão ou mais cruentas que tomam lugar na corte, e o outrora valente capitão é hoje um mercenário como tantos outros, com a algibeira sempre vazia e alugando sua destra espada a quem melhor pagar. Por vezes, vale-se da caridade da mulher que o ama, uma prostituta chamada Caridad, La Lebrijana.
Os dois volumes já lançados no Brasil, O Capitão Alatriste e Limpeza de Sangue, têm estrutura semelhante. A história é sempre narrada do ponto de vista do jovem pajem de Alatriste, Iñigo Balboa, órfão, filho de um ex-companheiro de armas de Alatriste e que foi entregue ao herói para ser criado por ele em nome da amizade que unia os dois homens. O enredo também segue uma seqüência similar de episódios: nos dois, atendendo ao pedido de um amigo, Alatriste aceita um trabalho que se revela mais do que aparenta.
No primeiro volume, contratado por homens misteriosos para assassinar dois desconhecidos, Alatriste não realiza o serviço que lhe foi encomendado, topa com uma intriga internacional e se enreda nos gabinetes da monarquia, contrariando a poderosa Igreja Católica. No segundo volume, um pedido para que Alatriste invada uma casa e recupere uma jovem raptada revela-se uma cilada que leva o herói aos porões da Inquisição.
O inusitado em Alatriste é que suas aventuras, escritas para lembrar os clássicos capa-e-espada espanhóis como Tirso de Molina e Manuel Fernández González, entremeiam duelos e traições com digressões anacrônicas sobre a Inquisição, a religiosidade, o poder, a política e a honra, algumas que poderiam ser aplicadas como comentários da nossa realidade contemporânea.
Um tributo moderno à história do passado.
Confira na edição de sábado do Segundo Caderno da Zero Hora uma matéria sobre Homem no Escuro, o novo livro do norte-americano Paul Auster. Por hora, fique aí com um trecho do livro, que está chegando às lojas. (Dica 1: para entender o contexto do trecho, leia a reportagem da edição de sábado. Dica 2: o diálogo é assim mesmo, sem travessões ou aspas para identificar as falas.) Como sabe o meu nome? Você é do meu pelotão, seu pateta. E aquele buraco? O que eu estava fazendo lá dentro? É o procedimento normal. Todos os recrutas chegam até nós desse jeito. Mas eu não me alistei. Não entrei para o exército. Claro que não. Ninguém faz isso. Mas é assim mesmo que acontece. Uma hora a gente está lá, vivendo a nossa vida, e de repente está no meio da guerra. Brick fica tão confuso com as afirmações de Tobak que nem sabe o que dizer. É assim mesmo, matraqueia o sargento. Você é o otário que eles apanharam para a grande missão. Não me pergunte por quê, mas o estado-maior acha que você é o melhor homem para a missão. Talvez porque ninguém conheça você, ou talvez porque você tenha esse... esse o quê, mesmo?... esse seu jeitinho manso e ninguém vai desconfiar que você é um assassino. Assassino? Isso mesmo, assassino. Mas eu prefiro usar a palavra libertador. Ou então criador da paz. Chame do jeito que quiser, o fato é que sem você a guerra não vai terminar nunca. Brick gostaria de cair fora dali rapidamente, mas, como não estava armado, não foi capaz de pensar em mais nada para fazer senão continuar a representar seu papel. E quem é que eu tenho de matar?, pergunta. Não é tanto quem, mas o quê, responde o sargento enigmaticamente. A gente nem tem certeza do nome dele. Pode ser Blake. Pode ser Black. Pode ser Bloch. Mas temos um endereço, e, se a esta altura ele já não tivesse escapulido, você não teria dificuldade alguma. Vamos levar você até um contato lá na cidade, você vai usar um disfarce, e em poucos dias tudo deve estar terminado. E por que esse homem merece morrer? Porque ele é o dono da guerra. Ele inventou a guerra, e tudo o que acontece ou vai acontecer está na cabeça dele. Elimine essa cabeça, e a guerra pára. É muito simples. Simples? Você fala como se ele fosse Deus. Deus, não, cabo, apenas um homem. Fica sentado numa saleta o dia inteiro escrevendo, e tudo o que ele escreve vira verdade. Os relatórios do serviço secreto dizem que ele anda atormentado pela culpa mas não consegue parar. Se o sacana tivesse coragem para estourar os miolos, nós não estaríamos aqui tendo esta conversa.
Nabokov em um carro em Ítaca, Nova York, em setembro de 1958.
Foto: Carl Mydans/Time & Life Pictures/Getty Images

Esta chegou pelo serviço de notícias da agência DPA: o último manuscrito de autoria do russo Vladimir Nabokov (foto), o desconcertante autor de Lolita e Fogo Pálido, um romance intitulado The Original of Laura, finalmente será publicado. O anúncio foi feito em uma entrevista do filho de Nabokov, Dmitri, à edição alemã da Vanity Fair.
O livro virá à luz mais de trinta anos depois da morte de Nabokov, que deu instruções expressas à sua mulher para queimar não apenas esse manuscrito mas um grande número de anotações. A mulher de Nabokov não incinerou os originais, contudo, e os passou a Dmitri, dizendo que ele deveria decidir sobre se queimava ou não o material. Dmitri justificou assim sua resistência à VF alemã:
— Não quero passar à história da literatura como um piromaníaco.
Essa discussão está longe de ser fácil. Basta ver que desse tipo de recusa de cumprir a última vontade de um escritor e queimar seus papéis já advieram coisas como a obra inteira de Kafka, que não foi queimada por Max Brodt, como o autor pediu, e todo um baú de porcarias de Hemingway, trazido à baila por herdeiros interessados em faturar uma graninha. Dmitri apresenta um argumento muito lógico para sua própria recusa:
— Se meu pai quisesse realmente que o romance não fosse publicado, poderia ele mesmo ter dado um fim nela.
Nabokov morreu em 1977, aos 74 anos.
The Original of Laura tem publicação prevista para setembro de 2009.
"A polícia disse em que navio seu irmão embarcou?"
"Como, se não houve navio nenhum? Eles não vão investigar, nem estão mais pensando no assunto. Simplesmente dizem que ele foi embora para a Itália."
"Entendo, baseiam-se numa inspiração. Muito bem, lamento não poder ajudá-la. A única coisa que posso fazer é levantar suposições Ele pode ter sido assaltado e morto. Mas onde está o corpo, então? Fale de novo com a polícia. Cedo ou tarde alguém vai encontrar o corpo e comunicar a polícia, e seu quebra-cabeça estará resolvido."
Maria Maffei balançou a cabeça. "Não acredito nisso, senhor Wolfe. Realmente não acredito. Depois, tem o telefonema."
Me intrometi. "Que telefonema?"
Ela sorriu para mim, mostrando os dentes."Eu ia falar sobre isso. Ele recebeu um telefonema na pensão, um pouco antes das sete. O telefone fica no andar de baixo e a garota ouviu a conversa. Ele estava entusiasmado e combinou encontrar uma pessoa às sete e meia." Ela se virou para Wolfe. "O Senhor pode me ajudar, senhor Wolfe. Pode me ajudar a encontrar Carlo. Aprendi a parecer fria como gelo porque vivo há muito tempo entre esses americanos, mas sou italiana e preciso encontrar meu irmão e descobrir se alguém o machucou.
Wolfe balançou a cabeça. Ela fez que não viu.
"Por favor, senhor. O senhor Durkin disse que o senhor é muito mão-fechada quanto a dinheiro. Eu ainda tenho uma reserva e poderia pagar todos os custos e talvez um pouco mais. E o senhor é amigo do senhor Durkin e eu sou amiga da senhora Durkin, Fanny."
Wolfe disse: "Eu não sou amigo de ninguém. Quanto pode pagar?"
Ela hesitou.
"Quanto você tem?"
"Tenho... bem... mais de mil dólares."
"Quanto, desse valor, estaria disposta a pagar?"
"Eu pagaria... tudo. Se o senhor encontrar meu irmão vivo, pagaria tudo. Se o senhor encontrá-lo e ele não estiver vivo, mas se o senhor o mostrar para mim e me mostrar a pessoa que fez mal a ele, ainda assim eu pagaria bastante. Mas primeiro teria de pagar o enterro.
As pálpebras de Wolfe se abaixaram e se ergueram lentamente. Aquilo, como eu sabia, significava sua aprovação; eu sempre buscava aquele sinal, freqüentemente em vão, quando me dirigia a ele. Ele disse:
"Você é uma mulher prática, Maria Maffei. Além disso, é provável que seja uma mulher honrada. Você tem razão. Tenho uma coisa que pode ajudá-la: trata-se do meu gênio. Mas você não forneceu o estimulante necessário para despertá-lo, e se ele vai ou não acordar para buscar seu irmão é uma questão problemática. Mas, seja como for, primeiro vem sempre a rotina, e os gastos com isso são pequenos."
Se você tivesse um caso criminal importante para resolver, e o único detetive capaz disso fosse preguiçoso, pedante, cínico, arrogante, mal-humorado e de personalidade profundamente desagradável, você provavelmente o contrataria, mas não iria com a cara dele.
E se esse detetive fosse o responsável por conduzir você pelos meandros da investigação em um romance policial, você provavelmente desistiria dele depois das primeiras 15 páginas.
Foi esse dilema que o americano Rex Stout (na foto, em imagem de 1975 de autoria de Jill Krementz) considerado um dos grandes nomes do romance policial em todos os tempos, resvolveu com a criação de seus personagens Nero Wolfe e Archie Goodwin, cuja primeira aventura, Serpente, publicada originalmente em 1934, está sendo republicada pela Companhia das Letras (com tradução de Álvaro Hattnher).
Wolfe é o patrão. É um detetive obeso, mais que um gourmet, um gourmand, imenso, descomunal, que, confiante no poder privilegiado de sua mente, resolve os casos sem sair de casa, amparado pelo trabalho de campo de agentes como Archie, que começa como um dos empregados de Wolfe e vai assumindo, na série, papel proeminente até se tornar o braço direito em definitivo nas mais de setenta histórias com o personagem. Goodwin é carismático e gente boa, o tipo de detetive safo com o qual o leitor pode criar empatia, um processo ao fim do qual até mesmo a rotunda e estranha figura de Wolfe vai parecendo mais simpática. Neste primeiro livro, Wolfe, mais preocupado em conseguir o molho perfeito e a melhor cerveja do que em procurar pistas recebe uma serpente pelo correio. Algo que o coloca na pista de dois assassinatos e o leva a enfrentar seu duplo, um criminoso que também valoriza o raciocínio tanto quanto ele.
Anos mais tarde, os historiadores levantam o pó dos fatos e, comparando teorias e contextos, dissecam um acontecimento ou época. Mas, para se ter uma sensação de como os contemporâneos de um fato o viram, aquele valioso "calor da hora", os jornais ainda são imbatíveis.
É o que se percebe em O Grande Livro do Jornalismo (José Olympio, 378 páginas, R$ 49), uma coletânea de 55 reportagens assinadas por mestres da escrita e da reportagem que funcionam como um passeio a algumas impressões de primeira hora que o mundo teve de si mesmo. O texto que abre a coletânea é Um Homem é Guilhotinado em Roma, escrito pelo romancista Charles Dickens (no desenho ao lado) em 1845, numa passagem do escritor pela Itália. Planejado para o jornal Daily News, que o próprio Dickens havia ajudado a fundar, acabou saindo direto no livro Pictures from Italy. É interessante notar como o estilo de Dickens, normalmente associado a um tipo de escrita melodramática, parece se adeqüar bem ao gênero de reportagem testemunhal que ele pratica neste texto.
A reportagem que encerra o Grande Livro do Jornalismo é O Relógio Marcava 7h55 — Precisamente o Momento em que o Míssil Explodiu, do jornalista especializado na cobertura do Oriente Médio Robert Fisk (foto ao lado, de autoria de Steve Payne). É um relato curto e brutal do início dos bombardeios americanos a Bagdá, em março de 2003, visto do chão, do arrasado solo iraquiano, e no qual Fisk apresenta o que sobrou da casa de uma família depois que um explosivo explode. Fisk é inglês e já teve lançados no Brasil, entre outros, dois tijolões monumentais imperdíveis para quem quer saber mais sobre o Oriente Médio. A Grande Guerra pela Civilização: A Conquista do Oriente Médio, pela Planeta, e Pobre Nação: As guerras do Líbano no século XX, pela Record.
Entre Dickens e Fisk, por ordem cronológica, tomamos contato com cinco dezenas de relatos impregnados de sentido de urgência. Durante a guerra entre Espanha e Estados Unidos, em 1899, Stephen Crane (na foto), autor de O Emblema Rubro da Coragem, tem a sorte — que, ele confessa, na época considerou azar — de estar junto a um grupo de fuzileiros incumbido de manter a sinalização náutica na baía de Guantánamo (é, aquela mesma da polêmica prisão americana em solo cubano) sob fogo cerrado. Quando um terremoto varre São Francisco do mapa em 1906, outro craque do romance, Jack London, de O Lobo do Mar e O Chamado da Floresta, está na cidade para servir de testemunha e correspondente para o Collier's Weekly.
À medida que o século 20 avança e o jornalismo se profissionaliza, somem da coletânea os escritores de ofício que atuavam também como repórteres bissextos e os jornalistas "de profissão" assumem a autoria dos principais depoimentos
e textos - sem que se perca o já mencionado sentido de urgência que faz o charme do livro. O correspondente John Gunther publica em 1940 um perfil detalhado do então chanceler alemão Adolf Hitler. Relman Morin cobre, em 1957, a tensão da primeira experiência americana de integração escolar entre brancos e negros. O americano Richard Harding Davis narra o exército alemão invadindo a Bélgica como um turbilhão, durante o início da I Guerra Mundial, e o também americano William L. Shirer vê a rendição francesa às tropas alemãs em junho de 1940, já na II Guerra.
Organizado pelo antologista e crítico Jon E. Lewis (do qual já tivemos lançado no Brasil há alguns anos uma antologia d'Os Melhores Contos de Faroeste), o conjunto do livro não é isento de falhas. A principal é a ausência de um breve comentário biográfico sobre os autores — presente em alguns textos e em outros não. É bom que o leitor saiba também que algumas das histórias do livro não estão lá completas — e em alguns casos não são novas. O excerto Morte no Topo do Mundo, de autoria de Jon Krakauer, faz parte de outro livro que já teve edição no Brasil: o best-seller No Ar Rarefeito, do catálogo da Companhia das Letras. Também há um trecho do clássico Hiroshima, de John Hersey (o sujeito na foto abaixo, e sim, é um selo, ele está na série "Grandes Jornalistas" do Correio americano), que já foi publicado na íntegra pela mesma Companhia das Letras no Brasil, na edição dessa reportagem que abriu a Coleção Jornalismo Literário.


Sojenitsyn em um trem em Vladivostok, após sua volta à Rússia. Foto de Evstafiev
Na manhã de 7 de janeiro de 1974 a liderança do Partido Comunista da União Soviética se reuniu para traçar o plano de batalha contra uma grave ameaça à ideologia e ao poder comunista: um escritor e seu livro. Leonid Ilyich Brejnev, secretário geral do partido, sentou-se à cabeceira da mesa de reuniões e deu início ao encontro. "Camaradas", começou, "segundo nossas fontes no exterior e a imprensa estrangeira, Alexander Soljenitsyn publicou uma nova obra na França e nos Estados Unidos — Arquipélago Gulag."
Naquela época a saúde de Brejnev começava a se deteriorar. Ele trabalhava apenas quatro ou cinco horas por dia, intercalando tarefas com cochilos freqüentes, massagens, saunas e lanches, sob os cuidados premanentes de seus médicos. Sua fala era lenta, arrastada. "Soube pelo camarada Suslov que o secretariado tomou a decisão de iniciar na imprensa daqui uma operação de desmoralização contra esta obra de Soljenitsyn e sua utilização pela propaganda burguesa", Brejnev prosseguiu. "Ninguém teve ainda a chance de ler o livro, mas seu conteúdo essencial já é conhecido. Trata-se de uma revoltante arenga anti-sóviética. Precisamos decidir o que fazer com Soljenitsyn. Pela lei, temos motivos de sobra para mandá-lo para a prisão. Ele tentou desacreditar o que consideramos mais sagrado: Lênin, o sistema soviético, o poder soviético — tudo que mais valorizamos... O arruaceiro Soljenitsyn escapou ao controle."
Yuri Andropov, chefe da KGB na época e futuro sucessor do trono do partido, não esperou muito para dar suas recomendações. Era de longe o membro mais inteligente do Politburo, e fica claro pela leitura das atas daquela sessão do Politburo (uma pilha de documentos classificados como "Ultra-secretos", nos arquivos do partido) que Andropov foi a voz decisiva. Melhor do que qualquer outro ele compreendia a ameaça que a obra de Soljenitsyn representava ao regime. Em 1962, quando Nikita Krushchev permitiu a publicação de Um dia na vida de Ivan Denissovitch como forma de desacreditar a era Stálin, uma grande abertuda cultural estava começando — uma abertura que enervou tanto os líderes comunistas que eles finalmente a bloquearam, proibiram a impressão dos livros de Soljenitsyn e em 1964 "aposentaram" Krushchev "por motivos de saúde". Mas a missão literária de Soljenitsyn, o processo de dar voz a 60 milhões de vítimas do terror soviético, prosseguiu secretamente e mesmo coletivamente. Grande parte de Gulag se baseou em centenas de cartas e relatos de ex-prisioneiros, enviados a Soljenitsyn depois que Um dia... foi publicado. Andropov intuiu que a nova obra poderia a seu modo minar, tanto quanto todo o arsenal nuclear do Ocidente, o poder soviético.
"Creio que Soljenitsyn deve ser deportado do país sem seu consentimento", Andropov disse, segundo a ata do Politburo. "Trotsky foi deportado em sua época, sem concordar com isso [...]. Todos estão esperando para ver o que vamos fazer com Soljenitsyn — se vamos puni-lo ou simplesmente deixá-lo em paz [...] defendo que precisamos tomar medidas legais contra ele, usando toda a força da lei soviética.
Andropov então avivou a evidente raiva dos outros membros com descrições sucintas do "descaramento" de Soljenitsyn — encontros com correspondentes estrangeiros, desafio do controle do partido sobre a literatura e a edição de obras no estrangeiro. Os originais de Gulag e outros livros haviam sido microfilmados por Soljenitsyn e sua esposa em Moscou, e contrabandeados por amigos e contatos, até chegarem aos editores ocidentais.
Nikolai Podgorny, titular do Presidium, ficou furioso e defendeu, indignado, a proposta de suprimir Soljenitsyn, apesar da possibilidade de reação externa. "Na China há execuções públicas", ele disse. "No Chile, o regime fascista fuzila e tortura pessoas! Na Irlanda, os ingleses usam a represssão contra as classes trabalhadoras! Devemos enfrentar um inimigo que consegue atirar lama em todos e se dar bem?"
"Podemos despachar Soljenitsyn para Verkoiansk, para lá do círculo ártico", sugeriu Alexei Kossiguin, o premiê soviético, um "liberal" na visão de muitos analistas estrangeiros. "Nenhum correspondente estrangeiro irá visitá-lo lá, pois faz muito frio."
Indepentemente do que fosse feito, Brejnev disse, o problema com Soljenitsyn passaria. O regime era inabalável. "Em nossa época — 1968 —, não hesitamos em agir para acabar com a contra-revolução na Tchecolosváquia", ele disse. "Não nos importamos em deportar Alliluyeva" — a filha rebelde de Stálin, Svetlana. "Sobrevivemos a tudos isso. E sei que vamos superar este momento."
Enquanto o secretário-geral prosseguia, monótono, o alvo da fúria do Politburo trabalhava, escrevendo num pequeno quarto de hóspedes da dacha de um amigo no vilarejo de Peredelkino, a cerca de meia hora de carro a oeste de Moscou. Como fazia desde a temporada na prisão, usava cadernos pequenos, que enchia de caligrafia minúscula, para poder esconder melhor notas e originais em caso de busca; após um dia de trabalho, ele ia ao quintal da dacha e queimava os rascunhos. Soljenitsyn sempre foi um ouvinte ávido de amissoras estrangeiras de ondas curtas, e quando ouviu a notícia de que Gulag fora publicado no exterior permitiu-se um momento de satisfação. Depois, retornou à mesa de trabalho.
O trecho acima, extraído do recente livro Dentro da Floresta (Companhia das Letras), do jornalista americano David Reminck, abre o primeiro dos dois perfis que o autor, correspondente na Rússia de 1988 a 1992 e na época do texto em questão editor da revista The New Yorker, uma das mais conceituadas dos Estados Unidos, fez do escritor, dissidente político, exilado e controverso Prêmio Nobel Alexander Soljenitsyn (1918 – 2008), cuja morte foi anunciada ontem. Eu o transcrevo aqui apenas para que a prosa sedutora de Remnick possa dar uma idéia de importância que a obra de Soljenitsyn tinha no cenário político internacional no período. O Gulag citado pelos generais russos em sua reunião viria a se tornar o livro mais conhecido de Soljenitsyn, uma contundente, embora irregular e confusa mistura de memórias, reportagem e romance sobre as colônias prisionais de dissidentes montadas pelo regime soviético, para a qual o escritor foi mandado depois de enviar uma carta a um amigo com algumas piadas sobre o "bigodudo" Stálin – situação semelhante à que se encontra no romance A Brincadeira, de Milan Kundera, no qual o protagonista é enviado a um campo de prisioneiros políticos porque, em uma correspondência para a namorada, encerrava com um irônico, provocador e mal entendido pela polícia política "Viva Trotsky". Soljenitsyn havia sido oficial de artilharia durante a II Guerra, e isso, mais a política oficial stalinista de em um primeiro momento arranjar prisões especiais para os intelectuais caídos em desgraça, garantiu a ele cumprir a pena em condições mais brandas, logo revogadas. Desenvolveu um tumor no estômago que o enviou para os matadouros que eram os pavilhões de cancerosos (experiência que também transformaria em um romance anterior a Gulag. Também a experiência da prisão intelectual viraria um romance, O Primeiro Círculo). Depois da publicação de ...Ivan Denissovich, Soljenitsyn passou a receber muitas cartas de prisioneiros do regime, que coletou minuciosamente por anos e se tornaram a base para o Gulag.
Os melindres dos generais em sua reunião mostram que a atitude tomada contra Soljenitsyn não seria isenta de repercussões. Naquele ano de 1974 Soljenitsyn já havia recebido o Nobel de Literatura — em parte como uma declaração política da Academia Sueca contra o regime que havia perseguido e censurado o escritor uma década antes de Gulag vir a público.
Nos últimos anos, depois da redemocratização, Soljenitsyn havia se convertido em uma figura controversa na própria Rússia pelas suas declarações de profundo moralismo religioso. Havia escrito recentemente um roteiro para uma série de TV baseada em sua obra O Primeiro Círculo, sucesso de audiência na TV russa, e, sempre crítico de Gorbachev, havia se recolhido a uma postura mística religiosa reforçada pela sua aparência de ancião ortodoxo – como Tolstói no século 19, por exemplo. Agora, um sinal de que sua popularidade no Brasil declinou violentamente é o fato de que há uns 15 anos era impossível não tropeçar em algum livro dele tanto em livrarias quanto em sebos, e agora apenas nestes últimos — e ainda assim bem menos do que naquela época.

Paulo Coelho na 43ª Feira do Livro de Porto Alegre, em 1997
Vocês lerão na reportagem especial deste sábado da edição impressa de Zero Hora um material completo sobre o lançamento do novo livro de Paulo Coelho, O Vencedor Está Só, o 12º romance do escritor carioca, o mais vendido e o mais controverso autor brasileiro da atualidade.
O Vencedor Está Só se passa durante um período de 24 horas no balneário francês de Cannes, durante um dos festivais de cinema mais cheios de pompa e circunstância do mundo. Nesse cenário de muito champanhe, superficialidade e aparências, o romance tem como personagem condutor da trama (mas não necessariamente o com mais tempo em cena, digamos assim) Igor, um empresário russo obcecado por Ewa, a esposa que o trocou há dois anos por Hamid, um famoso estilista de origem árabe. Ex-soldado durante as guerras do Afeganistão e com seus atos justificados por uma fé distorcida que o faz acreditar que cumpre a vontade de Deus, Igor percorre o pequeno e célebre balneário francês usando o que aprendeu em seus tempos de exército para matar indiscriminadamente. O motivo é que Ewa também está na cidade, acompanhando a primeira incursão do novo marido como produtor de cinema, e Igor considera os assassinatos que comete como oferendas amorosas à ex-mulher, a quem seguiu até Cannes. No meio dessa intriga central, Coelho empilha outros personagens que representam a seu modo as vaidades pulsantes no mundo das celebridades: produtores de cinema, distribuidores, top models, mesmo o policial encarregado da investigação, comentários do autor ao atual estatuto das celebridades na indústria mundial do entretenimento.
Por telefone, de sua casa na França, Coelho nos concedeu uma entrevista na última quarta-feira, na qual falou sobre seu novo livro, sobre a recente biografia publicada por Fernando Morais (cuja entrevista vocês leram e ainda podem ler aqui mesmo neste blog) e desabafou seu descontentamento com a crítica. Aqui, vocês conferem a íntegra da conversa.
Zero Hora — O senhor volta neste livro à questão da fama, que estava presente em O Zahir e, em algum grau, em A Bruxa de Portobello. Aqui, entretanto, ela é o centro do livro. É um famoso tratando sobre a fama?
Paulo Coelho — Eu procurei fazer um retrato. Procurei não julgar. Enquanto O Zahir era um livro muito mais intimista, eu estava ali me colocando na condição de um escritor famoso, tinha muito de mim lá e eu estava julgando apenas um aspecto da celebridade, nesse retrato de O Vencedor Está Só procurei mostrar o mundo como ele é neste momento. Se você olhar hoje em dia as pessoas que vão ao portal da CNN, por exemplo, que são pessoas interessadas em notícias. Tem lá notícias sobre o Talibã, a extradição de um criminoso de guerra, mas se tiver algo sobre a Amy Winehouse eles vão clicar primeiro nisso. Embora fiquem ali 15 segundos, 20 segundos. A celebridade serve como referência no mundo de hoje. Por quê? É essa a pergunta que eu respondo no livro.

ZH — Não é irônico que o título do livro seja O Vencedor Está Só quando há uma multidão de personagens no livro?
Coelho — No fundo, quando falo de solidão estou me referindo principalmente ao personagem principal, o assassino, mas existe uma solidão sem dúvida nenhuma na chamada Superclasse. E esse não é um termo que foi inventado por mim, ele foi usado na tese de um livro que acabou de sair, Superclass, no qual o escritor, David Rothkopf, chegou à conclusão que a "Superclasse" mundial engloba seis mil pessoas, e nessa lista ele incluiu três representantes brasileiros: eu, o Lula e o Safra. Eu convivo com esse time há bastante tempo. E dá para notar não a solidão, mas um clima de menos ansiedade. No final desse meu livro, eu abordo os que já pertenceram à superclasse e a agora estão na fase de decadência. Um pouco antes da festa de recepção, elas têm de fazer de tudo para tentar aparecer. Eu acho que essas pessoas, pelo pouco que eu conheço delas, se sentem muito sozinhas. Agora, quem está agindo tem o trabalho como base, e essa solidão não existe. Essa solidão é mais no âmbito geral, entre as pessoas que, quando precisam tomar uma decisão, não podem contar com ninguém. Inclusive eu. Eu vou ouvir A, B, C, mas tomar a decisão e assumir a responsabilidade por ela sozinho.

ZH — Logo, o senhor foi incluído por um outro autor entre as seis mil pessoas que formam essa "superclasse". O senhor se assume como integrante desse grupo?
Coelho — Eu fiquei muito surpreso quando ele me colocou no livro. E perguntei quais foram os critérios para inclusão. E ele me disse: influência, poder e dinheiro, separadamente, não necessariamente juntos. Então no meu caso, não creio que seja por motivo de poder ou dinheiro, mas talvez de influência, dado que hoje algo que eu escrevo atinge um grande número de pessoas _ e aqui não falo dos livros, mas de artigos para jornais, imprensa, como durante a invasão do Iraque, eu escrevi alguns textos sendo veementemente contra. Mas isso também não impediu a invasão, então até mesmo essa influência é relativa.
ZH — O senhor está lançando seu romance por uma nova editora — sua terceira troca de casa publicadora em cinco anos. Qual foi o motivo. Pergunto porque é inevitável pensar se houve alguma influência da sua manifestação pública acerca do acordo que sua editora anterior fez aceitando recolher a biografia de Roberto Carlos.
Coelho — Não, ao contrário, eles nunca falaram nada, a Planeta é uma ótima editora. Vou te explicar por que eu mudei de editora: até então eu representava a mim mesmo no Brasil, e a Mônica, minha agente, me representava no mundo inteiro. Eu me representava aqui porque eu comecei aqui, achava que não precisava de agente aqui, mas chegou uma hora em que concluí que precisava sim, porque os lançamentos são muito complicados. Então eu liguei para a Mônica e disse: preciso que você me represente no Brasil também. E ela tomou essa decisão e eu não quis entrar no mérito. Voltando à questão dos critérios, se ela tomou essa decisão, ela sabe o que está fazendo.
ZH — Por que o Festival de Cannes? Pela representação de um fascínio pelo efêmero ou pelo glamour?
Coelho — Acho que escolhi o Festival de Cannes porque quando eu estive lá, algumas vezes, eu fui para ver filmes, e descobri que o festival era uma outra coisa completamente diferente. E aquilo me fascinou muito. O inusitado sempre me fascina. Não sou alguém que vê alguma coisa que não entendo e minha primeira reação é criticar. De jeito nenhum. Vou procurar entender ou pelo menos demonstrar minha surpresa pelo que está acontecendo. O que aconteceu foi que eu disse: "Caramba! Achei que fosse um festival de cinema, e não era". E então pensei: "aqui tem toda uma gama de coisas que me interessam, e eu poderia usar esse cenário para romantizar". O meu livro no fundo é muito próximo da realidade. A ficção ali é um pretexto para, primeiro, proteger a identidade das pessoas, e segundo, para estruturar melhor o livro. Mas o que tem ali não é tão ficção quanto se poderia achar.
ZH — O senhor considera então o romance um ensaio.
Coelho — Sim, é um ensaio. o Tom Wolfe fez isso com a Fogueira das Vaidades. Quando ele foi escrever sobre a década de 1980 ele usou uma ficção, mas você vê que existe pouca ficção naquilo ali. E é um retrato daquela época, os yuppies, as operações na bolsa, um negócio muito implacável.
ZH — O senhor critica com alguma acidez o mundo das celebridades, e ao mesmo tempo também tem o status de uma. Em algum momento o romance se tornou uma avaliação desse mundo pela celebridade que é o autor?
Coelho — A sua pergunta é pertinente, mas eu tentei me distanciar ao máximo para não ficar um livro tendencioso. Então como celebridade planetária, e como, segundo o David Rothkopf, um integrante da Superclasse, eu tentei tomar distância e acho que consegui. Até porque eu não escolhi um escritor, como no caso de Zahir, em que você tem toda a razão quando vê essa aproximação entre autor e personagem.
ZH — Fernando Morais, autor de sua biografia, O Mago, ressalta mais de uma vez naquele livro a importância da fé em sua literatura. Algo que se repete em O Vencedor Está Só todos os personagens têm fé em alguma medida. Mesmo o mais perigoso deles, o assassino serial.
Coelho — O problema dos personagens desse livro é que são pessoas com fé nas coisas erradas. Um tem a fé de que vai conseguir isso, que vai conseguir aquilo e por aí vai. Eu acho que a fé é o que move o ser humano, mas as pessoas no livro, todos eles têm alguma fé em um projeto, em uma proposta, mas infelizmente a fé não basta. Por outro lado o assassino começa a deturpar completamente essa fé, justificando seus atos usando a fé. É o que você vê hoje em dia no crescimento do fundamentalismo, a fé sendo usada para impor uma idéia e não para transformar a vida das pessoas para melhor.
ZH — Já que falamos de sua biografia, Fernando Morais esteve aqui em Porto Alegre autografando o livro e comentou que o senhor já havia lido o livro. Qual foi sua reação?
Coelho — Li, devo ter lido a biografia no fim de maio. E me surpreendeu muito. Eu já tinha visto a capa, e a capa começava a falar umas coisas ali que eu não estava entendendo. Aí eu li a biografia e pensei: "esse sou eu?". E era. O Fernando foi extremamente correto, absolutamente factual, ele pegou meus diários, escreveu exatamente a parte que é possível comprovar da vida de uma pessoa. Evidentemente que ele não abordou, e aí vai uma opinião pessoal, certos assuntos espirituais nos quais eu acredito mas que ele não acredita.
ZH — E sobre a análise feita de sua obra?
Coelho — Ele é absolutamente próprio quando fala da crítica brasileira. A crítica é hoje absolutamente jurássica, ela perdeu completamente sua relevância, repete as mesmas coisas há 20 anos a meu respeito, e o meu trabalho já passou por duas gerações. Quem me leu há 20 anos hoje tem 40 anos e um filho com 20 que continua lendo, a prova é que O Alquimista continua vendendo. E se está vendendo é porque não está vendendo mais para o pai, e sim para o filho. Então essa crítica preconceituosa mostrou a sua insignificância. E isso eu só fui me dar conta quando eu li o livro do Fernando. Porque realmente os caras escrevem qualquer coisa, bom que o Fernando publicou isso, os caras vão ficar com o nome ali bonitinho para todo mundo saber o que escreveram. A crítica não é o retrato do tempo. Ela julga ser um retrato do tempo, mas é baseada em valores e parâmetros do início do século 20. E continua naquele ramerrão, ou seja, só crítico lê crítico.
ZH — E quais parâmetros no seu entender devem balizar uma crítica relevante?
Coelho — Eu acho que hoje em dia se os críticos fossem mais arejados, parassem com os preconceitos, comessem menos um na mão do outro, tivessem mais opinião própria, entrassem no myspace, teriam um retrato muito mais honesto do tempo. É muito engraçadinho o crítico ficar metendo pau para impressionar seus pares. Mas é uma coisa completamente vazia. Eu falo de moda no meu livro e as pessoas dizem que é uma coisa vazia. Não é, a moda é um espelho de nosso tempo. A crítica é vazia, não é um espelho de seu tempo, não é sequer um espelho do tempo em que eu tinha 20 anos. A crítica, ou muda ou desaparece. Ou melhor, já desapareceu. Ela tem de se adaptar a novos parâmetros de linguagem. A linguagem mudou, as pessoas escrevem de modo diferente e tem gente que ainda acha que o parâmetro são Os Lusíadas.
ZH — Ao falar isso o senhor está se referindo às críticas de que o senhor tem deficiências semânticas e gramaticais em sua obra?
Coelho — Por exemplo. Quando eu fiz uma música chamada Eu nasci há dez mil anos atrás, com o Há e o Atrás, ninguém falou nada. Aí pensei: pois agora vou pôr essa frase em todos os meus livros, só para implicar. Em O Vencedor Está Só não tem. Mas andei botando em outros livros. Aí as pessoas apontam: "olha isso aqui, não pode, tem de ser 'há dez mil anos' ou 'a dez mil anos atrás'". E eu digo: "olha que bobagem, isso estava na capa de um LP e ninguém nunca falou nada". Iam no meu livro para catar erro de português com lupa. Ora bolas, estou muito mais preocupado em retratar a linguagem coloquial. A língua é uma coisa viva. Você não escreve mais hoje como escrevia em "Estavas, linda Inês, posta em sossego". E os caras ainda estão ali pensando na forma. A forma é a moda e o conteúdo é o corpo. E os caras hoje estão obcecados pela forma, começa aí pela metalinguagem, coisas que ninguém sabe o que quer dizer mas fica todo mundo deslumbrado. Os escritores estão muito preocupados com metalinguagem, epistemologia, semiótica, e vão impressionar só o cara que escreve a crítica no caderno cultural "x". Mas a relevância dessas pessoas hoje em dia é nenhuma.
ZH — Mas o senhor mesmo lança mão de citações, cita um poema de Robert Frost, são aspectos formais.
Coelho — Opa, mas eu abro com Walt Whitman, eu não estou falando dos clássicos. Neste momento mesmo estou preparando uma antologia de textos clássicos para a editora inglesa Penguin. Essas pessoas, se você for ler, vai ver que a crítica desceu o malho. George Orwell levou pau até cansar. Oscar Wilde, foi preso, exilado. O Bram Stoker foi ignorado com o Drácula. Então se você for olhar a biografia dessas pessoas você que isso não é de hoje. Henry Miller, James Joyce, que eu particularmente não gosto, foi muito criticado. Só que naquela época tudo bem, o tempo passa, o Joyce fica e o crítico foi esquecido. Se você pegar os recortes da época, no caso do Oscar Wilde, do Joyce, a crítica tá ali mostrando seu descompromisso, sua esquizofrenia com a realidade. Mas hoje as pessoas nem lêem. Naquela época, pelo menos liam, criavam escândalo e as pessoas compravam. Nunca consegui ler James Joyce, fui saber recentemente que ele foi considerado pornográfico e proibido na Inglaterra. Então o fato de eu citar Robert Frost, Walt Whitman, é citar pessoas que foram pesadamente criticadas.
ZH — O senhor vê uma relação entre o trabalho deles e o seu, acredita que sua obra será clássica daqui a 50 anos?
Coelho — Não, não estou falando isso. Não faças essas ilações. Eu estava falando era da crítica, eu não sei o que vai acontecer com o meu trabalho daqui a 50 anos. Estou falando que a crítica provou no passado sua incompetência e no presente reflete sua insignificância.

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